Rojava e a FairCoop (1)

 
Autor: Nó local de Bashur
 

Nos anos 70, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) liderou o movimento de libertação do povo curdo, inspirado nos ideais socialistas. Quando o seu líder, Abdullah Öcalan, foi preso na ilha de Imrali para cumprir pena perpétua por traição (1999), desenvolveu novas teses que conduziram a uma mudança de paradigma. Baseado nelas, o movimento curdo começou a promover, para as quatro partes do Curdistão, um modelo de organização chamado de Confederalismo Democrático e Autonomia Democrática.

Estas quatro áreas habitadas pelo povo curdo são o resultado de uma divisão realizada em 1923, no seguimento do acordo Sykes-Picot e como consequência de um boicote por parte da França e Inglaterra, após a tentativa por parte dos curdos de fundar o seu próprio Estado.

Esta decisão resultou na divisão de uma população de aproximadamente 40 milhões de apátridas (sendo a maior nação do mundo sem Estado), distribuída desigualmente, no território de quatro Estados diferentes:

Bakur - Norte (Turquia)

Başur - Sul (Iraque)

Rojhilat - Este (Irão)

Rojava - Oeste (Síria) 

Entre eles, os seguidores da filosofia de Öcalan são conhecidos como “Apoistas”, um termo derivado de APO, diminutivo de “tio” Öcalan. Para o movimento curdo, o conceito de Apoista - que hoje envolve muitos actores e organizações tanto militares como políticas – afastou-se da ideia de fundar um Estado, resultando num modelo de organização que poderia ser interessante para o desenvolvimento da ideia geral da FairCoop como um ecossistema autónomo. 

 

Crise na região

As crises nascidas das lutas pelo poder são vivenciadas tanto pela guerra como pelo declínio contínuo dos benefícios proporcionados pelos meios financeiros, comerciais e industriais. Se o custo das guerras é excessivo e não é compensado de forma alguma, a depressão social e económica é inevitável. 

As sociedades nas quais a hierarquia e o Estado (geralmente sistemas baseados no poder) não se desenvolveram, como a curda, são afetadas predominantemente por crises derivadas de problemas geobiológicos, tais como políticos, económicos e demográficos. 

Uma crise temporária pode transformar-se numa crise sistémica, ainda mais se vier de uma confluência de factores. Agora, a situação social na nossa região é insustentável sob o sistema vigente. A estrutura social rompe-se, criando um ambiente caótico e tornando necessário o desenvolvimento de novas estruturas sistémicas. 

  • Aqueles que prepararam respostas mais sofisticadas ao fluxo ideológico e estrutural das forças sociais e económicas aproveitarão a chance de assumir um papel de liderança no novo sistema. 
  • Aqueles que têm uma compreensão fatalista da história como uma "linha reta" tiveram resultados particularmente pobres na tentativa de prever como as coisas vão acabar. Projetar uma natureza complexa, como a sociedade, na forma de estudos de engenharia, tem sido uma tentativa de remediar a crise, o que levou a um aprofundamento ainda maior da depressão. A nudez do exemplo sírio e os jogos disputados hoje na região são um bom exemplo. 

Todos os segmentos sociais são afetados pela depressão, mas alguns inimigos sociais marginalizados do sistema atual podem beneficiar do processo de criação dessas novas bases sociais: a mulher é influenciada negativamente pela centralidade e hierarquia masculina, o escravo pelo senhor, o camponês pelo agha, o oficial pelo chefe, o trabalhador pelo patrão. Toda a sociedade é adversamente afectada pelos dispositivos de pressão e exploração dos monopólios do poder e sofre dano, exploração, opressão e tortura. 

As soluções oferecidas pelo poder e seus monopólios são formas mais intensivas de poder e exploração. O oposto é a resistência constante e levantes, “contra-guerras”. 

As comunidades do Médio Oriente tiveram a chance de liderar os valores económicos tanto na Pré-História quanto depois. Eles sabem o que é economia. O que eles acham difícil de entender são as catástrofes que sofreram sob o nome da economia vampírica chamada capitalismo, genocídios económicos reais. 

O capitalismo não é um elemento indispensável da vida económica, mas um grande problema, uma substância cancerígena. Esta realidade será melhor compreendida nas actividades realizadas pelo capitalismo em áreas como petróleo, gás, água, automóveis, etc., que provocam a destruição do meio ambiente e estrangulam a sociedade. A actual transformação da sociedade em massas de desempregados, sem profissão, imigrantes e  pessoas sem famílias, tornam a magnitude do desastre mais compreensível. 

Actualmente, o sistema tribal nas sociedades do Médio Oriente está a diminuir cada vez mais. O carácter tribal dos beduínos foi gradualmente exterminado pelos árabes e o dos turcomanos pelos turcos. Os kurmandj, do povo curdo, são a principal fonte de democratização da sociedade. A ideologia democrática e o movimento político devem primeiro organizar todos esses segmentos juntos. Essas são as principais forças da modernidade democrática. 

Além disso, é uma tarefa social histórica e indispensável avaliar todas as seitas - sendo a região lugar principal de religiões monoteístas, especialmente para minorias yezidis, alevitas, siríacas, arménias, gregas e judias - como tesouros culturais, construindo que como um instituto ou academia e avaliar os seus membros em termos de modernidade democrática, reconhecendo a vida igualitária, livre e democrática sob todas as condições. O movimento de Rojava lidera o caminho na direção das ideias de Abdullah Öcalan e, por causa disso, mantém-se como alvo de muitas forças do poder.

Durante todo este processo, a situação em Rojava facilitou de facto a expansão da Autonomia Democrática como uma experiência unificada envolvendo três cantões. Por esta razão, examinando e avaliando de perto o projecto ideológico-político e as experiências levadas a cabo pelos curdos, o seu desejo por um autogoverno e as reivindicações por autonomia parecem ser vitais para as discussões sobre o processo de resolução e de paz, bem como o futuro colectivo.

 

Industrialismo e ecologia

A ecologia desempenha um papel vital na divulgação da insegurança industrial. Se um sistema mantém o seu ambiente, isto é, a atmosfera indispensável à vida fora da sustentabilidade, não pode ser defendido por qualquer razão. Na era do capitalismo industrial, o sistema não só se tornou barbarizado, no seu verdadeiro sentido, como se tornou o verdadeiro anjo da morte (Azrael). O famoso conceito de industrialização das artes, desportos e sexo mostra que a sociedade é consumida moral e conscientemente. 

Em todas as áreas da sociedade, como a cultura material e espiritual, o choque do impacto da muralha ecológica contra o industrialismo, a formação do Estado-nação e o capitalismo, não é apenas um apelo por uma sociedade democrática livre, mas um apelo à própria vida. 

A era da indústria poderia ser assumida como a era rebelde contra a era ecológica, mas para revoltar a ecologia iria levar-nos ao juízo final, porque a sociedade da era industrial não pode sustentar a sua vida sem cuidar da sua ecologia em todas as áreas.

"Como as constituições democráticas são destinadas a limitar o Leviatã (a besta do Estado-nação), a ecologia é o única que vai limitar a monstruosidade industrial". Abdullah Öcalan

Na abordagem para a economia nos escritos de Öcalan, a economia comunitária é construída pelo Centro de Rojava para a Melhoria e Fortalecimento da Economia, com base nos pilares da democracia, ecologia e emancipação das mulheres. Estes três princípios estabelecem as bases da economia comunitária na Autonomia Democrática. A economia comunal ou social é construída pelos conselhos, comunas e cooperativas. 

 

Quem é o primeiro dono da economia?

Pode soar estranho, mas acreditamos que o verdadeiro dono da economia, apesar de todas as tentativas de invasão e colonização, ainda é a mulher. Se quisermos avaliar significativamente a economia a partir de uma perspectiva sociológica, devemos ver a mulher (a carregar, criar e alimentar as crianças até que elas possam ser independentes, para além de ser a artesã da casa) como o poder fundamental. 

Esta resposta de base sociológica é muito mais respeitosa com a verdade. Não ignora a relação entre a economia e a biologia. Como o recolector de plantas foi por milhões de anos até à data o actor principal na revolução agrícola, dentro de casa e em muitas áreas da vida económica, foi a mulher que sempre girou a roda. Os gregos antigos determinaram essa verdade milhares de anos atrás e reconheceram isso nomeando a mulher responsável pela gestão económica e doméstica. 

Em segundo na fila, depois da mulher, é claro, aqueles que se enquadram na categoria de escravo, servo e trabalhador. Métodos sem fim e misericórdia garantem o seu trabalho e mantêm-nos sob a mais rígida coleira para que os poderes civilizacionais possam confiscar o produto excedente e o valor. 

A construção dessa muralha ecológica pelas mãos das mulheres de Rojava, na sua base e consolidação com FairCoin será útil em muitos aspectos e um bom investimento para o futuro.

Portanto, temos que entender que trabalhar para o sistema é igual à escravidão moderna, e apoiar o sucesso da FairCoop é a nossa poderosa alternativa. O sistema de Rojava deve discutir o uso de FairCoin (que é a economia alternativa real e justa) por toda a sua sociedade. A esse respeito, é necessário usar, encorajar e fornecer as ferramentas necessárias para isso se concretizar. 

Os povos de Rojava que lideram a região na sua democratização também devem contribuir na criação de uma alternativa económica ecológica e amiga do ambiente. Assim, o trabalho construído terá bases sólidas. 

 

No próximo post esperamos avaliar o progresso da Faircoin em Rojava.

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Para descobrir mais sobre os sistemas na região, pode visitar o seguinte link: https://cooperativeeconomy.info/co-ops/rojava-bakur/rojava/

Para referências mais detalhadas, explicações e descobrir alguns dos livros de Abdullah Öcalan, pode fazer download da app “Netewa Demokrat” e também clicar no link em baixo:

http://www.ocalan-books.com.

Se não tens dinheiro, aqui podes fazer download da versão em inglês vol. 1 http://confed.zone/media/1.Civilization.pdf | vol. 2 http://confed.zone/media/2.Capitalism.pdf; ou em espanhol: vol. 1 https://rosadefoc.noblogs.org/files/2018/02/1.Civilizaci%C3%B3n.pdf | vol. 2 https://rosadefoc.noblogs.org/files/2018/02/2.Capitalismo.pdf.

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